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Capítulo 6 - PESQUISAS EPIDEMIOLÓGICAS EM SAÚDE FÍSICA E MENTAL E RELIGI ÃO

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Religião, psicopatologia e saúde mental

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PESQUISAS EPIDEMIOLÓGICAS

EM SAÚDE FÍSICA

E MENTAL E RELIGIÃO

SAÚDE FÍSICA E RELIGIÃO

A relação entre saúde física e religião tem sido estudada de forma sistemática desde o início do século XX (Levin; Larsen, 1997). Um volume consistente de pesquisas, segundo Jeffrey Levin e Harold Vanderpool (1987) tornou evidente uma crescente área de investigação; eles propuseram, então, denominá-la “epidemiologia da religião”. Nas últimas três décadas, Jeffrey Levin tem se tornado o principal expoente desse campo, publicando não só estudos empíricos com dados originais, mas também análises críticas em relação ao uso do constructo religião em epidemiologia, sobretudo no periódico Social Science and Medicine, caracterizado pelo rigor e pela abertura crítica.

Em 1987, Levin e Schiller revisaram mais de 200 estudos que envolviam a relação entre dimensões da religião e a saúde em geral, estudos esses que apareceram na literatura médica no século XX. Depois disso, muitas outras revisões foram publicadas sobre as relações entre religião e taxas de mortalidade e morbidade específicas. De modo geral, tem-se encontrado associações estatísticas significativas entre maior envolvimento e crenças religiosas e menor freqüência de condições como doença cardiovascular, hipertensão, doença cerebrovascular, câncer e doenças gastrintestinais, assim como associações com indicadores gerais do estado de saúde (boa saúde auto-relatada, sintomas gerais, disfunções e incapacidades, longevidade, etc.).

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Capítulo 1 - INTRODUÇÃO

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INTRODUÇÃO

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!

Por exemplo, por aquele manipanso

Que havia em casa, lá nessa, trazido de África,

Era feiíssimo, era grotesco,

Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer em um manipanso qualquer –

Júpiter, Jeová, a Humanidade –

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Fernando Pessoa (In: Poesias de Álvaro de Campos)

A primeira parte deste livro visa revisar criticamente a literatura sobre religião na sua interface com disciplinas como psicopatologia, psicologia e antropologia. Isso servirá de moldura teórica a uma reflexão sobre investigações empíricas desenvolvida na segunda parte do livro. Assim, praticamente toda a análise e reflexão deste livro tem em comum o tema da religião, articulada com distintos aspectos da saúde mental e de diferentes transtornos mentais.

Procede, portanto, indagar logo de início o que é, enfim, esta invenção humana1 chamada religião. Como se deve conceber hoje e em nosso meio a experiência religiosa? E, afinal, por que relacionar religião e psicopatologia? Que conexões existiriam entre a religião e os transtornos mentais? Existiriam relações necessárias ou, se não necessárias, importantes entre a religião e o campo da saúde mental?

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Capítulo 8 - REFLEXÕES SOBRE ESTUDOS EMPÍRICOS

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REFLEXÕES SOBRE

ESTUDOS EMPÍRICOS

Neste capítulo, serão feitas, inicialmente, reflexões sobre trabalhos empíricos realizados pelo grupo de pesquisa coordenado por mim, na UNICAMP, grupo esse que investigou, nos últimos 15 anos, diversas relações entre saúde, transtorno mental e religião. Alguns trabalhos empíricos desse grupo estão disponíveis no endereço eletrônico: www.artmed.com.br. Posteriormente (Capítulos 9, 10 e 11), busco refletir de forma um pouco mais ampla sobre o campo de investigação “religião e saúde mental”, tanto a partir de alguns autores já apresentados na Parte I deste livro como em relação ao panorama sociocultural contemporâneo.

LIMITAÇÕES DE ESTUDOS EMPÍRICOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE MENTAL

Cabe aqui assinalar algumas das principais limitações dos estudos científicos empreendidos na linha de pesquisa “religião e saúde mental”, particularmente dos nossos próprios estudos. Assim como em outras pesquisas nessa área, em nossas investigações buscamos identificar algumas relações específicas entre religião, saúde e transtornos mentais, porém, ao executar os recortes que constituíram os objetos empíricos, estabeleceu-se determinado contorno para a religião e para o sofrimento mental, assim como se definiram amostras e instrumentos de coleta de dados. Todo esse processo, deve-se reconhecer, estabelece limites, determina um alcance específico e reduz necessariamente a abrangência dos resultados e das interpretações.

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Capítulo 3 - A PSICOLOGIA DA RELIGIÃO

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A PSICOLOGIA DA RELIGIÃO

Não apenas no interior da psicanálise ou por ela inspirados, diversos autores têm buscado a análise psicológica da religião lançando mão de outros referenciais teóricos. Não há espaço, aqui, para cobrir a vasta literatura concernente. Em nosso meio, a psicologia da religião foi revista recentemente de forma cuidadosa por

Edênio Valle (1998).

Pode-se divisar, entretanto, dois grandes campos, o da psicologia européia, mais marcado pelas correntes fenomenológicas e existenciais, e o da psicologia norteamericana, de forte extração empírica. Esta última, desde o início, deu maior ênfase

às possíveis “dimensões da experiência religiosa”, à conversão e às “atitudes” dos sujeitos envolvidos, muitas vezes com perspectivas relacionadas à psicologia social.

Na Europa, a tradição hermenêutica, fenomenológica e psicanalítica influenciou autores como Girgensohn (1930) e Külpe, na Alemanha; Vergote (1966), na

Bélgica; Penido, na França; e Fizzotti (1992), na Itália. Eles enfatizaram perspectivas originais com base em métodos introspectivos, na psicanálise e na especificidade psicológica da vida religiosa (Quadro 3.1). Apesar das importantes contribuições européias, a psicologia da religião desenvolveu-se de forma mais vigorosa no meio anglo-saxão, em particular nos Estados Unidos.

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Capítulo 11 - CONCLUSÕES

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CONCLUSÕES

Esforcei-me, ao longo desses anos de pesquisa, para compatibilizar duas perspectivas difíceis, talvez impossíveis de serem compatibilizadas: a pesquisa médica e epidemiológica e as dimensões da vida religiosa e do sofrimento pessoal. À pergunta: “afinal, a religião faz bem ou faz mal à saúde mental”?, eu tratei de buscar respostas, mesmo sabendo que talvez seja uma pergunta imperfeita, ou malformulada, pois envolve consideráveis simplificações.

Apesar das ressalvas a tais dificuldades metodológicas, a religião, na maior parte das vezes, parece fazer bem à saúde. Parece dificultar que as pessoas se tornem problematicamente envolvidas ou dependentes de bebidas alcoólicas e outras substâncias, assim como parece oferecer um alento a quem sofre de dolorosas experiências depressivas, ansiosas ou mesmo psicóticas. Uma semana após eu ter falado algo nessa linha em um recente programa de televisão, um paciente meu me retrucou: “O senhor falou bonito na TV, doutor Paulo, gostei. Mas isso tudo que o senhor disse não é certo para mim. Para mim, a religião fez um mal terrível...” (a seguir tentou me explicar por que a religião lhe fez muito mal). De outros pacientes, sobretudo de familiares, não tem sido incomum ouvir “[...] Doutor, quando ela começa a falar muito de religião é aí então que eu sei que a coisa vai desandar”.

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Capítulo 4 - RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE NO BRASIL

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RELIGIÃO E

RELIGIOSIDADE NO BRASIL

E se Deus é canhoto

E criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Carlos Drummond de Andrade,

Hipótese (In: Corpo)

AS MATRIZES RELIGIOSAS BRASILEIRAS

Tanto historiadores, como Alphonse Dupront (1978), e antropólogos, como

Marshall Sahlins (1990), concordam que a religião, seu ethos e visão de mundo tendem a estabelecer linhas de acentuda permanência histórica. Dupront (1978) argumenta que a experiência religiosa tem, na linha do tempo, no longo prazo, uma grande estabilidade nas visões de mundo que configura. Para Sahlins (1990), a religião dos povos situa-se nas “estruturas históricas de longa duração”. Assim, observar a constituição do campo religioso brasileiro em sua historicidade possivelmente permita algum insight de como ele se configura nos dias atuais.

Desde seu início, com a descoberta pelos portugueses, até cinco décadas atrás, o Brasil se identificou como um país praticamente de exclusividade católica. Pierucci

(2005) lembra bem que o ato fundador dessa nação foi uma mitificada “primeira missa” celebrada pelo franciscano frei Henrique de Coimbra, em Porto Seguro, no dia 26 de abril de 1500.

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Capítulo 5 - PSICOPATOLOGIA E RELIGIÃO

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Religião, psicopatologia e saúde mental

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PSICOPATOLOGIA E RELIGIÃO

LOUCURA E RELIGIÃO: UMA ANTIGA E ÍNTIMA RELAÇÃO

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma...

Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas.

Ackerknecht (1985) afirma, em sua breve história da psiquiatria, que a noção de transtorno, doença mental ou “loucura” que o Ocidente hoje admite difere muito das noções dos povos indígenas, seja da atualidade ou do passado remoto. Nesses povos, quase todas as doenças e, sobretudo, as formas de alteração mental e comportamental que designamos “transtorno mental grave” são concebidas como produtos de forças sobrenaturais: maus espíritos, deuses, roubos espirituais, possessões, obra de bruxas ou de feiticeiros. Descontada a grande variação em termos do que se considera “anormal” entre povos não-ocidentais, quando a “loucura” ocorre e é reconhecida nesses povos, quase sempre são acionadas percepções e representações que a localizam no âmbito do sagrado, do demoníaco, da possessão, enfim, ela ganha uma acepção plenamente religiosa.

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Capítulo 10 - RELIGIÃO COMO SISTEMA PRIVILEGIADO DE CONSTITUIÇÃO DE SENTIDO E RESSIGNIFICAÇÃO DO SOFRIMENTO

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Religião, psicopatologia e saúde mental

RELIGIÃO COMO SISTEMA

PRIVILEGIADO DE CONSTITUIÇÃO

DE SENTIDO E RESSIGNIFICAÇÃO

DO SOFRIMENTO

Aprendemos com uma longa tradição155 retomada para a modernidade por autores como Schleiermacher, Weber, Ricoeur e Gadamer,156 e desenvolvida para os fenômenos religiosos por contemporâneos como Geertz (e, em certa medida, Berger), que a religião se inscreve no longo e interminável capítulo da história humana de dar sentido à existência bruta, de tornar o texto da vida pelo menos legível e passível de tradução para a experiência cotidiana. Entre nós, Carlos Rodrigues Brandão fala, nessa linha, de “sistemas religiosos de sentido” como referência a este universo multiforme e cada vez mais plural que é a religiosidade no Brasil.

Assim, de diferentes formas, a tradição hermenêutica tem influenciado bastante o horizonte teórico no qual se busca compreender a experiência religiosa. A hermenêutica, no sentido tradicional, referia-se à arte da tradução e da interpretação de textos (sagrados primeiro, profanos depois) de outra língua, de outro contexto histórico-social (ou de um corpus geral para situações específicas, como no caso da hermenêutica jurídica), trazendo-os à luz, à compreensão. Para a hermenêutica tradicional colocou-se a questão da tradução, e traduzir um texto exige a

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Capítulo 9 - DOIS ENTREATOS: A COMPLEXIDADE DOS CONTEXTOS E A RELIGIÃO COMO OBJETO DE ESTUDO CIENTÍFICO

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Paulo Dalgalarrondo

Se Deus está morto,142 afirma Dostoievski, através de seu personagem Ivan

Karamazov,143 então tudo é permitido. Para o homem moderno, sobretudo os “mais modernos”, eruditos, cientistas, não só tudo é permitido, mas, pior, a morte, limite maior de nossa existência, não tem mais qualquer sentido. Jacques Lacan (2005), entretanto, acrescenta, novamente, um paradoxo a esse debate. Ele confronta Ivan

Karamazov evocando outra vez o Édipo freudiano: se “Deus está morto, [aí então é que] nada mais é permitido”. O luto do pai produz esta seqüela duradoura, esta identificação que se chama supereu. Ou seja, o assassinato do pai cometido pelos homens do mercado de Nietzsche não torna tudo permitido, mas talvez faça com que eles se identifiquem uma vez mais com o pai não amado. De toda forma, Deus vivo ou morto, o paradigma da modernidade parece que não mais vige, pelo menos completamente. Vislumbram-se novos tempos.

Como entender, então, o religioso e as formas de sofrimento nesta contemporaneidade intensamente fugidia, na qual as formas de sociabilidade, os valores, os modos de organização do trabalho, os símbolos culturais, a subjetividade, tudo enfim, muda muito rápida e radicalmente? O desafio é acertar o foco em um cenário que parece resistir a ele.

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Capítulo 2 - FORMADORES DO CAMPO TEÓRICO

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FORMADORES DO

CAMPO TEÓRICO

Quem morre vai descansar na paz de Deus.

Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.

Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.

Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.

Deus, como entendê-lo?

Ele também não entende suas criaturas,

Condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.

Carlos Drummond de Andrade,

“Deus e suas criaturas” (In: Corpo)

OLHANDO PARA A SOCIEDADE E PARA A CULTURA

Em um passado longínquo

Nas várias sociedades humanas, a visão dominante sobre a religião e suas conseqüências para a vida dos homens tendeu, ao longo da história, a ser aquela adotada pelas hierarquias, sejam elas religiosas, políticas ou sociais. As versões oficiais e dominantes tenderam a ser quase sempre apologéticas. Os sacerdotes, teólogos e pensadores afirmam os dogmas, a certeza da existência e centralidade dos deuses e suas leis inexoráveis; a salvação e a felicidade (sejam elas terrenas ou celestiais) só sendo possíveis pela adoção das crenças e pela obediência às leis. Em particular, nas tradições cristã, islâmica e judaica, desde o final da Antigüidade, vários pensadores sutis e profundos, como Santo Agostinho, Anselmo, Abelardo,

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Capítulo 7 - ESTUDOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE MENTAL REALIZADOS NO BRASIL

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ESTUDOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE

MENTAL REALIZADOS NO BRASIL

ESTUDOS DE RELEVÂNCIA HISTÓRICA

No Brasil, desde a virada do século XIX para o XX, diversos autores têm estudado a religiosidade nas suas relações com o sofrimento individual e os transtornos mentais. Não há espaço, seguramente, para uma revisão completa da produção sobre o tema realizada por autores brasileiros. Serão mencionados apenas alguns trabalhos e autores a fim de assinalar algumas das linhas de investigação mais significativas.121

Raimundo Nina Rodrigues122 foi, possivelmente, um dos primeiros a estudar de forma sistemática a religiosidade dos negros e pardos, assim como as epidemias de “loucura coletiva” (ele falava em “epidemia vesânica de caráter religioso”) em nosso país. O valor de seu trabalho123 foi, sobretudo, etnográfico, pois descreveu minuciosamente os cultos, as práticas e as entidades sagradas dos africanos e seus descendentes. Da mesma forma, descreveu tais “epidemias” de “loucura cole-

121

O professor de medicina da Universidade do Estado do Amazonas João Bosco Botelho publicou, recentemente, um livro dedicado à relação entre religião e medicina na história, dando ênfase a tal relação na história do Brasil e nas inter-relações entre catolicismo, medicina oficial e popular. (BOTELHO, J. B. Medicina e religião: conflito de competência. Manaus:

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